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Para uma sociedade nova e reconciliada Marcelo Barros |
M.Paz |
Todo grupo espiritual, seja qual for a sua pertença cultural ou religiosa, tem por missão ser referência de futuro melhor para a humanidade. Um dos primeiros pensadores cristãos dizia que a Igreja deve ser ensaio de um mundo novo e mais justo. Sinal do reino de Deus no mundo, a Igreja deve ser de tal forma modelo de relações humanas novas e mais amorosas que se possa propor para toda a humanidade a sua forma de ser. Por isso, ela se chama com este termo "Igreja", tradução do grego: assembléia.
Conforme a tradição bíblica, no meio do deserto, em caminhada para a terra prometida, os antigos hebreus se reuniram sobre o monte Sinai para receber o presente de contrair uma aliança íntima com a divindade. A tradição chamou aquela reunião como "assembléia do Senhor".
E aquele dia do casamento com Deus tornou-se conhecido como "o dia da assembléia" (Cf. Livro do Êxodo 19). No começo do Cristianismo, esta expressão "assembléia" (em grego Eklesia, de onde vem o termo Igreja) tinha um sentido social e político. Igreja era a assembléia dos cidadãos livres e com plena participação no destino comum. As comunidades cristãs se chamaram Igrejas, porque, diferentemente de outros cultos na época, se organizavam em comunidades locais, onde homens e mulheres exerciam um "discipulado de iguais" e, entre todos, eram repartidos ministérios ou serviços que tinham como objetivo a solidariedade para com as pessoas de dentro e de fora. No começo do segundo século, o bispo Inácio chamou o conjunto da Igreja de "católica", não porque esta era uma corporação internacional e sim porque tinha a vocação de viver em função do todo ((kathos holos). Ser aberto a tudo o que é humano.
Baseados nesta antiga compreensão de Igreja, na década de 60, em nome de sua fé, muitos cristãos latino-americanos começaram a participar de movimentos para transformar o mundo. Homens e mulheres do campo e das periferias urbanas organizaram-se como "comunidades eclesiais de base", isto é, grupos pequenos de pessoas, próximas umas das outras, que procuram viver entre si a solidariedade e interpretam a fé como fermento de justiça e de paz. Quanto mais aprofundam a Bíblia, mais se sentem chamados a lutar para que a terra seja repartida e os direitos humanos respeitados.
Alguns setores da hierarquia eclesiástica tiveram e têm dificuldades de compreender este modo novo de ser Igreja. Em 1968, a assembléia do episcopado latino-americano, em Medellín, Colômbia, aceitou que, para ser fiel à sua vocação, a Igreja investisse mais no caráter de comunidade local e assumisse uma dimensão crítica em relação à sociedade vigente. Naquele contexto, os bispos afirmaram: "A comunidade eclesial de base é célula viva de Igreja e fator primordial da promoção humana e desenvolvimento" (Conclusões de Medellín, 15, III, 10). Esta palavra dos bispos deu forte apoio à opção de ligar fé, vida, espiritualidade e compromisso social. Foi para ajudar as comunidades de base e os trabalhos de pastoral social que se desenvolveu a reflexão que se tornou conhecida como "Teologia da Libertação".
Daquele tempo para hoje, tanto a realidade do mundo, como a sensibilidade da maioria dos pastores das Igrejas cristãs mudaram muito. Cabe a Deus julgar a intenção das pessoas e, quem sabe, um dia, lhes fazer ver as graves conseqüências sociais das suas opções pastorais e humanas.
Neste ano em que o documento final da conferencia episcopal de Aparecida, já aprovado pelo conjunto dos bispos, sofreu modificações ocultas, entre outras razões, para não conter referências a comunidades eclesiais de base, é importante recordar um documento da CNBB que agora completa 25 anos. Em novembro de 1982, o Conselho Permanente de Pastoral, organismo diretivo da CNBB, publicava o documento intitulado "Comunidade Eclesial de Base na Igreja do Brasil" (n. 25 da coleção de documentos da CNBB).
Este documento afirma: "As Comunidades Eclesiais de Base constituem, hoje, em nosso país, um dos traços mais dinâmicos da vida da Igreja e, por motivos diversos, vai despertando o interesse de outros setores da Sociedade". Nele, os bispos elogiam as Cebs por "redescobrirem na leitura da Bíblia o aspecto libertador da História da Salvação" (n. 12). Reconhecem que as Cebs se constituem "uma nova maneira de ser Igreja" 9n. 45) e recordam que, ao menos dois planos bienais de ação pastoral da CNBB assumem as Cebs como "prioridade de opção da Igreja Católica no Brasil" (n. 19).
Neste início de século, as Comunidades Eclesiais de Base seguem o seu caminho, espalhadas por todo o continente e em grande diversidade de estilos e de atividades em comum. De qualquer modo, por seu próprio modo de existir e funcionar, elas convidam o conjunto da Igreja a, como pedia São Paulo em suas cartas: "não esperar a salvação da lei nem do mero fortalecimento das estruturas hierárquicas ou arquitetônicas". No caso de uma comunidade de fé, isso dá a impressão de que, finalmente, "vencemos a crise", mas é apenas como um cenário cinematográfico, armado em papelão ou plástico que serve de figuração para uma Igreja gótica, um castelo medieval, ou para alguma cerimônia barroca, mas como canta Toquinho na sua bela "Aquarela", no fim de tudo, "descolorirá, descolorirá"...
Quem ama profundamente a Igreja e deseja vê-la atualizada e capaz de falar uma palavra profética ao mundo de hoje sabe que o caminho mais justo será o de acolher a proposta que, há 40 anos, fizeram os bispos latino-americanos, reunidos na sua 2ª conferência geral: "Que se apresente cada vez mais nítido o rosto de uma Igreja autenticamente pobre, missionária e pascal, desligada de todo o poder temporal e corajosamente comprometida na libertação de todo o ser humano e de toda a humanidade" (Medellin. 5, 15 a).
| ilustração de Pulika |
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