|
Uma espiritualidade nova para um tempo novo
Marcelo Barros [1] |
M.Paz |
Desta 4ª feira, 06 ao próximo domingo 10, em Brasília, pessoas de várias tradições espirituais e outras em busca de um método de vida interior se reúnem no 1º Fórum Espiritual Mundial que, no Centro de Convenções de Brasília, celebra e reflete sobre a diversidade cultural e religiosa como um dom divino para a humanidade. Com um método semelhante ao processo do Fórum Social Mundial e procurando viver o mesmo espírito de abertura e participação aberta, este fórum de espiritualidade tem como subtítulo: "Valorizar a diversidade para a construção de uma sociedade planetária". De fato, ele não quer fomentar um espiritualismo desligado da vida comunitária e social e sim consolidar um caminho de solidariedade universal que ajude a transformação amorosa de cada pessoa e do mundo, em função da justiça, da paz e do cuidado com o universo.
É uma feliz coincidência que este Fórum Espiritual aconteça em Brasília exatamente quando as Igrejas cristãs mais antigas do Ocidente iniciam o tempo do Advento, período litúrgico cujo objetivo é reacender no mundo a esperança e a mística do reino de Deus. Para a Bíblia, a esperança não é uma projeção no futuro. Ao contrário, significa viver aqui e agora, como por antecipação, o futuro que desejamos para o mundo. Nutrir-se de esperança não é apenas apostar na realização dos nossos melhores desejos, mas acreditar que, através de nós, Deus quer realizar o seu projeto e este não vai na direção de consolidar o modelo de organização social atualmente vigente e sim de transformá-lo.
O Brasil inteiro se lembra da Gabriela, criada por Jorge Amado e imortalizada na toada do Caymmi, que cantava: "eu nasci assim e vou ser sempre assim". Gabriela não era fatalista ou desesperançosa e sim uma jovem apresentada como símbolo de uma natureza pura e livre. O confronto com a nova cultura encontrada na cidade lhe revelaria outros modelos de mulher, seja a amante de coronéis, dependente e submissa, seja a jovem estudante que não se conforma com o lugar convencional que a sociedade patriarcal revela a suas filhas.
Em muitas culturas tradicionais, a mulher é símbolo de toda a comunidade e a questão colocada é qual o caminho de libertação e esperança para toda a humanidade, vítima de um modelo social e econômico desumano e opressor de todos, a começar pelos poucos ricos que, por ele, se deixam comprar e ter o espírito alienado.
Um fórum de espiritualidade deve ajudar a libertar o espírito, ou seja, o mais íntimo e profundo do ser humano de todos as alienações. Não se trata de libertá-lo para isolá-lo em uma áurea mística de individualismo sagrado. Nem de sonhar com um mundo paralelo de seres invisíveis que, no mundo antigo, foi a convicção filosófica de Platão e até hoje ainda faz sucesso em certas escolas espiritualistas.
A esperança alimentada pela espiritualidade ecumênica é profética porque se insere no coração da realidade para transformá-la à medida que trabalha para transformar o mais íntimo de cada ser humano. Assim, nos ensina a conviver com nossos conflitos interiores e nossas limitações. Se algum dia, podem ter sido fonte de divisão conosco mesmos e com os outros, a espiritualidade nos faz assumi-los e transformá-los em instrumentos de integração interior a partir dos quais somos cada vez mais nós mesmos, mas abertos ao outro e, assim, juntos, podemos trilhar uma vida nova.
Quando as religiões falam de salvação e de graça, estão se referindo a esta realidade de esperança profunda de transformação interior de cada pessoa e, ao mesmo tempo, social e política da sociedade na qual nos inserimos. Elas acolhem e dialogam com a sabedoria da ciência social e política, das experiências culturais, da racionalidade da economia e assim por diante. Entretanto, sua contribuição própria é a espiritualidade como uma opção amorosa que vai à raiz das questões porque busca responder às perguntas mais profundas das pessoas sobre o sentido da vida e como vencer tanta dor e tanta luta. Fazendo isso, esta espiritualidade inserida e ecumênica desmente os prognósticos pessimistas da realidade e subverte o destino de quem não consegue mais ver saída para os problemas que enfrenta.
Esta espiritualidade evita a arrogância de pensar que se possa mudar o mundo sem que cada um busque se transformar no mais profundo do seu coração. Entretanto, sabe que esta dialética não comporta um antes e um depois. As duas dimensões se articulam e são complementares. Por isso, precisamos aprofundar sempre uma visão crítica sobre nós mesmos e, ao mesmo tempo, sobre a realidade. Um fórum de espiritualidade é como o ensaio audacioso de uma sociedade na qual o econômico não seja mais reduzido ao mercantil, o consumo deixe de ser a ilusão de felicidade que as pessoas buscam, a cultura vá além do aspecto tecnológico e se consiga trocar toda e qualquer competitividade pela alegria da colaboração e da convivência gratuita. Esta é a base para que a proposta de fé, expressa em qualquer caminho espiritual, ganhe consistência e coerência, quando as pessoas saem do culto e vivem o cotidiano de suas casas e trabalhos.
Certamente, é importante ver reunidos em Brasília representantes dos mais diversos caminhos espirituais. Trata-se de um fórum aberto a qualquer pessoa e oferece cada dia atividades espirituais desenvolvidas pelas mais diferentes tradições. Entretanto, o mais importante é que este 1º Fórum Espiritual Mundial inaugura um processo permanente de diálogo e fraternidade entre os diversos grupos que ousam testemunhar que a tradução atual da espiritualidade é o grande sonho de viver a cidadania assumida por todos os seres humanos, a igualdade social e a justiça como as orações mais queridas do Espírito Divino.
O que torna este Fórum mais parecido com o Fórum Social Mundial não é apenas que ele tem caráter internacional ou que mobilizará muitas pessoas representativas da sociedade. É que ele se coloca no mesmo caminho do Fórum Social ao proclamar que um novo mundo é não somente possível, mas já começa a se realizar. Esta sua inserção, como o fato de ser o primeiro explica o fato dele ainda não ter sido assumido pela hierarquia de algumas Igrejas e confissões. Não deixa por isso de ser um grito profético que fará bem a todas as Igrejas e religiões.
A própria realização de um fórum desta natureza parece dizer às lideranças das religiões que a humanidade espera dos líderes espirituais que estes se unam para uma mensagem profética. Tenham a coragem de dizer ao mundo que não podemos mais contemporizar com um sistema social que se organiza tendo como base a exclusão social e humana da maior parte da humanidade. Os líderes religiosos precisam unir-se para dizer ao mundo que a terra e a água são bens comuns e pertencem por direito a todo ser vivo. Não têm preço e não podem ser reduzidos à condição de mercadoria.
Durante muito tempo, as religiões chamadas monoteístas pregaram a unidade como um atributo divino. Hoje, devemos reconhecer que a diversidade também é uma qualidade divina. Assim como na natureza, a biodiversidade é a condição da vida florescer em um determinado sistema biológico, reconhecer que Deus se manifesta de formas múltiplas e diferentes no mundo é um sinal de vitalidade espiritual e de abertura às novas revelações do Espírito. Já há quase 50 anos, a grande filósofa e espiritual francesa Simone Weil dizia: "Eu reconheço quando alguém é de Deus não quando me fala de Deus, mas pela sua forma de relacionar-se com o mundo".
|
email |
topo |