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A dança amorosa da vida
Marcelo Barros |
M.Paz |
Quando, após meses de seca, a primeira chuva desperta a semente no campo e enche de verde a paisagem da Terra é como se toda a vida acordasse para celebrar a energia amorosa que fecunda o universo. No Centro-oeste, isso acontece em setembro com as primeiras chuvas da primavera. No sertão do Nordeste, ocorre nesta época do ano. Os mais velhos consideram o 19 de março, véspera do inicio da primavera no hemisfério norte, a data limite para as primeiras chuvas, indicio de boa invernada durante este ano.
Hoje, este calendário é muito relativo. A Terra, agredida pelos projetos anti-ecológicos, já não obedece mais a estações bem delineadas e precisas. Chove quando não deveria e faz seca quando se espera chuva. É como um protesto da Terra por ver uma sociedade que consente em destruir o planeta para a conveniência e o lucro de uma minoria, ao mesmo tempo que convive com situações de profunda injustiça com mais de dois terços dos seres humanos que sobrevivem em condições de miséria. E a realidade sócio-econômica se agrava ainda mais do que há dez anos. O desemprego e a violência aumentam. Por causa disso, explodem guerras e violências em todo o planeta. Como ajudar a humanidade a entrar na dança amorosa e solidária da vida que se renova nesta mudança de estação?
As culturas antigas faziam isso através do rito. Encenando os antigos mitos e retomando a história dos seus heróis, as comunidades renovavam a esperança e encontravam força para renovar o caminho. Foi assim que surgiu a festa da Páscoa que a tradição judaica chama de "Pezah zeman herutenu" : "a estação da nossa libertação". O cristianismo fala de "Semana Santa e festa da Ressurreição". A forma e o conteúdo das celebrações variam, mas a raiz é a mesma. Os cristãos herdaram a Páscoa do judaísmo. As comunidades judaicas a receberam de antigas religiões nativas que festejavam a primavera e agradeciam a Deus as primeiras crias do rebanho, ou as espigas novas da plantação.
A Páscoa judaica tornou-se a comemoração da noite em que, conduzidos e animados por uma força divina, os hebreus conseguiram se libertar da escravidão do Egito. Cada ano, novamente, as comunidades judaicas fazem a ceia pascal para recordar a libertação social e política do seu povo. Mas, a ceia pascal faz recordar também a vocação de cada pessoa para libertar-se de tudo que a torne menos humana e verdadeira. Os rabinos judeus diziam que, através da Páscoa, Deus diz a cada pessoa humana que ele ou ela é um rei ou rainha, isto é, tem uma nobreza fundamental que precisa ser resgatada.
Os cristãos celebram em comum com nossos irmãos judeus essa memória da libertação do povo antigo. Lêem o Êxodo e cantam o mesmo cântico de Moisés, mas unem a esta recordação antiga o memorial da morte e ressurreição de Jesus Cristo. A ceia pascal é lembrada na ceia que Jesus celebrou com seus discípulos para renovar nas comunidades a vocação da solidariedade e da partilha da vida. A sexta feira santa recorda a doação que Jesus fez de sua vida e nos faz olhar, hoje, povos inteiros que são crucificados pelo Império e que, como Jesus, resistem e procuram ressuscitar. Por isso, a mais importante celebração cristã da Semana Santa é a Vigília Pascal, na noite do sábado para o domingo. Para os antigos pastores, uma comunidade cristã podia não celebrar a ceia do Senhor na 5a feira santa e mesmo não se reunir para a memória da paixão do Cristo na 6a feira santa. Entretanto, não deveria deixar de festejar a Páscoa da ressurreição no sábado à noite ou no domingo de madrugada, antes do sol nascer. É o mais antigo culto cristão, vivido desde os tempos das catacumbas, quando a comunidade se reunia nas madrugadas de domingo, para reviver a esperança pascal. No século IV, Santo Agostinho dizia que a Vigília Pascal, na madrugada do domingo da ressurreição, é "a mãe de todas as vigílias da Igreja".
Em uma sociedade pluralista e secularizada, estes ritos de caráter religioso já não conseguem mais dar sentido à vida como continuam dando às pessoas que vivem uma cultura ainda cristã. A sociedade atual tem outros ritos não religiosos, mas igualmente simbólicos. Para muitos jovens, participar de um show de algum/a cantor/a de sua predileção é uma verdadeira catarse litúrgica.
Para grande parte da humanidade atual, os fóruns sociais, temáticos, regionais, ou o Fórum Social Mundial, têm um sentido muito semelhante ao que, conforme a tradição judaico-cristã, a festa de Páscoa nos convida: nos recordar que um novo mundo é possível e já está em processo de nascimento.
Nas celebrações pascais ou nos fóruns laicais, o importante é colaborar com o projeto da esperança de uma renovação da vida e do mundo. As celebrações pascais e os fóruns sociais serão eficazes se as pessoas que deles participam encontrarem formas de solidariedade e organização que ajude a humanidade a se libertar da crueldade do sistema sócio-econômico atual. Nenhum rito litúrgico, como também nenhuma reunião ou fórum vai magicamente transformar o mundo. Mas, pode ser um ensaio ou como dizem os judeus a respeito da Páscoa: "uma estação da nossa libertação".
Os cristãos viverão isso recordando uma palavra de Jesus que, conforme o evangelho, foi dita no contexto da Páscoa: "Filhinhos, no mundo vocês sempre terão aflições. Tenham coragem: eu venci o mundo"(Jo 16, 33).
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