A corrida para as águas e a espiritualidade ecológica
Marcelo Barros
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M.Paz

Este novembro de 2004 pode ficar marcado para nós e para as futuras gerações por dois encontros internacionais sobre a defesa das águas no planeta Terra. Fui convidado para ser um dos três brasileiros presentes em um encontro que o Parlamento Mundial das Religiões para a Paz está realizando em Taiwan de 04 a 09 de novembro sobre a missão das religiões na defesa da democratização da água para toda a humanidade. Uma pequena cirurgia nos joelhos me impede de atender este convite, mas me sinto em comunhão com este encontro.

Quase ao mesmo tempo, de 09 a 12 deste mês, em Porto Alegre, ocorre o 2o Fórum Internacional das Águas, promovido por vários ministérios do governo federal, por secretarias do governo gaúcho, pela Associação Riograndense de Imprensa e pela própria ONU. O objetivo é fomentar o exercício da cidadania e a responsabilidade da humanidade para com a água, este elemento de nossa vida precioso e ameaçado. Representantes de 33 países confirmaram sua presença e os movimentos sociais procuram inscrever este evento no processo do Fórum Social Mundial e na busca de um novo mundo possível.

Para toda a humanidade, a preocupação com a Água é importantíssima porque mais de um bilhão de pessoas vivem em uma situação considerada de estresse hídrico, ou seja, com menos de dois litros de água potável por dia. Ao mesmo tempo, as pesquisas revelam: em 50 anos, houve uma redução de 62% na disponibilidade da água doce nas reservas do planeta. Na América do Sul, este dado ainda é mais alarmante porque a redução foi de 73%. O Brasil possui 53% de toda a água do continente e quase 1/ 5 da água do planeta, mas, em algumas de nossas cidades grandes, o desperdício chega a 40%. Metrópoles como o Rio, São Paulo e Recife têm cada vez mais dificuldade de garantir água para todos os seus habitantes.

No mundo, a água tem se tornado motivo de conflitos internacionais. De acordo com a ONU, em 36 pontos do planeta, ocorrem guerras e tensões entre povos nas quais o problema da água é elemento central. Por outro lado, na guerra cotidiana pela sobrevivência, o sistema econômico vigente joga com mais uma arma contra os pobres: a mercantilização da água e sua privatização. Governos e empresas mostram que a água é um bem precioso e a solução para administrar a atual crise hídrica é tornar a água um produto econômico. Dizem que a água custa dinheiro. Chamam a água de “ouro azul” e nos documentos oficiais se referem à água como “recursos hídricos”. No mundo todo, tentam privatizar a água que a natureza nos dá gratuitamente.

Os debates de todos os fóruns sobre a água são dominados por uma forte tensão entre dois grupos. Empresas e governantes defendem a mercantilização da água. Representantes da sociedade civil e grupos que trabalham pela paz e pela justiça sustentam: a água é um direito universal e básico de todo ser vivo, a ser garantido gratuitamente por todos os governos do mundo.

É pena que a sociedade civil e órgãos ligados a governos façam um Fórum em Porto Alegre, enquanto, do outro lado do mundo, encontram-se líderes espirituais e representantes das grandes religiões do mundo para discutir sobre o mesmo assunto: a água. Apesar do enfoque diferente e da responsabilidade diversa que ambos os grupos têm, o interesse é comum. A água é um tema central para todas as religiões e tradições espirituais. Além do fato dos líderes religiosos deverem aprofundar mais o seu compromisso com a paz e a justiça no mundo, cada vez mais eles percebem que a água não é apenas um bem econômico. É um tesouro cultural e um sacramento espiritual. É assunto central em todos os livros e experiências de espiritualidade. Na Bíblia, a água é sinal da presença divina na natureza. No Evangelho de João, a água é considerada sinal do Espírito Santo, mãe da vida (Cf. João 7, 37- 39).

Li em algum lugar que um grupo africano apresentava danças e ritos do seu povo em uma cidade da Itália. Como o grupo era constituído só de homens, o anfitrião italiano perguntou por que não tinham trazido as mulheres. O líder africano respondeu: “As mulheres não podem vir porque elas são nosso aqueduto. Sem elas, a água não chegaria aos poços de nossas aldeias”.

Para muitas culturas antigas, a água é literalmente a semente (esperma) que Deus, ao copular com a mãe-terra, nela derrama para que esta seja fértil. Esperma divino, a água tem a força de divinizar quem entra em comunhão com ela. Por isso, o ser humano precisa fundamentalmente de água e a ela tem direito sagrado. A água é essencial para a vida biológica, mas também para o aprofundamento de qualquer experiência espiritual.

Em todos os tempos, a água acompanhou a vida dos seres humanos. É o elemento mais utilizado nos ritos antigos. É instrumento essencial de higiene e saúde. Inspira os artistas e atrai os poetas. Defender a água como direito de todo ser vivo e que não pode ser vendida é um modo de acolher a sabedoria comum a todas as tradições espirituais e viver uma espiritualidade ecológica.
 

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