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Feliz Pai Novo, adeus pai velho Thania Coimbra e Marcelo Barros |
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O dia dos pais, apesar da inegável matriz comercial, é daquelas datas que fazem aflorar emoções. Para muitos, o contentamento de ter alguém para reverenciar, ou ser paparicado, mesmo que com hora
marcada; para outros, a tristeza da perda de um ser amado; e para alguns, ainda, uma espécie de “saudade do futuro”, na qual a pessoa sente nostalgia por algo que deixou de viver e que de alguma forma carrega consigo.
Todo mundo pode ter amigos e irmãos, mas cada ser humano quer ter apenas um pai e uma mãe. Em seu tempo, São Paulo escreve às pessoas que os acompanha: “Embora vocês, como cristãos, possam ter dez mil instrutores, não têm muitos pais. Só eu os gerei no Cristo” (1 Cor 4, 15). A figura do pai e da mãe é de tal forma estruturadora da personalidade que é comum uma certa idealização.
Muitas vezes, as mensagens que circulam em oportunidades como dia dos pais celebram uma espécie de pai e mãe que não existem no concreto de nossas vidas ou, ao menos, não daquele modo idealizado. Há muito, os papéis e funções que, na sociedade patriarcal rural, são atribuídos ao pai, não correspondem mais às necessidades e expectativas das gerações de cultura urbana. Mas na maioria das vezes, o modelo antigo foi derrubado ou caiu de velho e desgastado, mas não foi substituído por um novo modelo mais rico e atual. Isso é grave, porque todo mundo reconhece a influência imensa, positiva ou negativa, que um pai pode ter na formação humana, e constata o vazio imenso que ele deixa quando exerce apenas o papel de dar sua semente para gerar filhos ou cumpre mecanicamente as tarefas e obrigações jurídicas e econômicas, por força de lei.
Quem lida com atribuições religiosas sabe como tem sido cada vez mais difícil continuar dizendo que Deus é pai. Muitas vezes, as pessoas não têm coragem de reagir, mas, em muitos ambientes, a analogia da “paternidade divina”, ao invés de ligar as pessoas ao amor divino, as distancia e provoca mal estar. Como no comentário impulsivo e ingênuo de uma devota que, em um grupo de orações, disse que Deus permitiu a crucificação porque era pai e não mãe. O riso que se seguiu a essa fala foram reveladores.
Na natureza, a maioria dos animais vive em sociedade, mas os filhotes ganham autonomia, rapidamente. Apesar dos mamíferos precisarem da mãe ainda por algumas semanas e, no caso de certos animais maiores, de alguns meses, o fato é que poucas horas depois de nascidos já são capazes de andar e se proteger. A função do pai é muito limitada ou mesmo não existe como acompanhador e iniciador dos filhotes na defesa dos muitos riscos da vida. O ser humano, pelo contrário, necessita de longos anos para que o corpo e a alma estejam prontos para o desmame. Até que possam, ainda que relativamente, viver por si mesmos, os filhos precisam de adultos que os amem e eduquem.
Ser pai no plano biológico é relativamente fácil e hoje existem técnicas genéticas que garantem isso para quem tenha qualquer dificuldade. O desafiador é ser pai na construção amorosa de uma história humana, no acompanhamento contínuo e generoso do outro ser que está crescendo e precisa de ícones. Estudos recentes apontam como fundador da violência um certo modelo de macho cruel, que não, necessariamente se ensina, mas é assimilado da experiência de um pai ausente, omisso ou opressivo.
Quem, na vida, dedica-se à educação sabe que a paternidade (como a maternidade) não é espontânea nem se realiza sem uma fecunda preparação. Pai e mãe não surgem de uma hora para outra. Preparam-se e se aprimoram até chegarem ao exemplo de amoroso desprendimento citado pelo apóstolo que pergunta “qual o pai cujo filho lhe pede pão e lhe dá pedra?” Ou do Poema Enjoadinho, do Vinícius, que depois de enumerar o exaustivo trabalho de cuidar dos filhos, conclui: “Mas, que felicidade que os filhos dão”.
Sem dúvida, a vida hoje é mais pobre porque culturalmente não se colocou (quase) nada no lugar do falido modelo patriarcal. Apesar dos grandes avanços sociais, culturais, nutricionais e médicos, a média de duração dos casamentos brasileiros é de 10 anos. O que sobrevive é uma família nuclear onde falta, quase sempre, uma figura masculina positiva permanente.
Ou seja, é preciso fomentar um modelo mais rico e plural de família. Por outro lado, é preciso reconhecer que não só a mãe fica empobrecida, em todas as acepções, e sobrecarregada em sua tarefa de educar pessoas saudáveis, quando privada da participação efetiva do pai. Também o pai - ainda que não se dê conta - fica mutilado em seu emocional, quando deixa de colaborar na construção da família. Porque educar é tarefa cotidiana, feita de mil pequenos gestos e cuidados mútuos que ajudam a formar e manter adultos equilibrados.
Talvez seja na forjadura do novo pai que a nova mulher menos contribua com o homem. Porque enquanto ele próprio não tem modelos para isso, a cobrança feminina o atordoa e, finalmente, porque, na prática, a mulher na maioria das vezes tem dificuldade de delegar, dividir o poder sobre os filhos e seu apego. Assim, quando há a separação, o afastamento necessário do casal que reconstrói a vida, serve de desculpa para o afrouxamento da participação do pai. E, freqüentemente, embora se queixe disso a própria mulher não sabe viver o contrário sem se sentir desconfortável.
O mundo precisa de Pai: um novo pai . Ele é necessário não só para a saúde de seus filhos mas para a integridade do homem que o abriga e da riqueza da sociedade em geral.
Claro que há paternidade no engajamento social daqueles que lutam por justiça, no ato de criação do artista, no compromisso com os mais jovens e com o futuro do planeta, para além da vivência concreta de nutrir filhos. E assim como o dia e a noite são aspectos de uma mesma completude e guardam em si o seu propósito, homens e mulheres, pais e mães, são notas indispensáveis para a beleza da sinfonia da vida.
| [1] MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor;THANIA COIMBRA é jornalista |