O segredo de ser você e ser livre
Marcelo Barros
M.Paz
Desde os primeiros séculos, as Igrejas celebram 40 dias de preparação para a festa da Páscoa. O profeta estabeleceu para os crentes do Islã o sagrado mês de Ramadan e as comunidades afro-descendentes observam tempos sagrados em que a iniciação se faz pela reclusão e pelo retiro. Estas tradições espirituais ensinam que toda adesão espiritual precisa se firmar sobre uma base de veracidade interior e pessoal. Para se deixar tocar pela graça divina, não basta seguir ritos externos, por mais belos e úteis que estes sejam. Na Bíblia os profetas insistiam que a verdadeira conversão é interior e o sacrifício que agrada a Deus é um coração ferido pelo amor e que leve a pessoa a mudar de vida. Para ajudar a pessoa a viver isso, uma das propostas mais universais e ecumênicas de muitas tradições espirituais é a meditação. Alguns gurus orientais denominam a meditação como "a primeira e última liberdade".

Infelizmente, há quem pense que meditar significa refletir. Para a tradição oriental antiga, meditar significa alcançar um estado de quietude que lhe permita simplesmente ser, sem fazer nada. Você pode alcançar isso ao fazer com consciência e profundidade qualquer coisa que deva fazer. Pode-se meditar ao caminhar como faziam os monges peregrinos, ao tear, como fazia Gandhi, ao trabalhar no campo como é muito comum no Oriente e ao contemplar a natureza ou ao abraçar uma árvore, como propõem hoje alguns grupos espirituais.

Isso que parece tão simples é de fato uma dura conquista. O ser humano vive tão fora de seu centro interior que para quase todos nós, meditar não é algo simples e natural. Como dizia Dom Bede Griffis, abade beneditino inglês que se tornou guru indiano sem deixar de ser cristão: "é preciso voltar ao centro". O Dalai Lama insiste que a técnica e o progresso têm conduzido o ser humano para realizar muitas coisas interessantes e importantes, mas só a meditação reconduz o ser humano ao centro de si mesmo. Uma vez, no Recife, soube que um determinado padre desagradava a muita gente por seu jeito pouco acolhedor e seu temperamento agressivo. Um dia, ele recebe um telefonema do arcebispo dom Hélder Câmara que lhe pede para marcar um encontro pessoal. Imediatamente, o padre se dispõe a marcar a audiência. Ele pensava que iria receber o próprio arcebispo. Mas, este esclarece: "Não, padre. Não sou eu que preciso conversar com você. Estou pedindo que você marque um encontro pessoal e profundo consigo mesmo".

Em geral, a pessoa em questão nem percebe que está carente deste encontro. A correria do trabalho e a rotina da vida tomam conta de tudo. Eu mesmo já vivi momentos em que as pessoas dizem "você precisa parar ou se afastar disso ou daquilo" e a gente mesmo não quer acreditar. Só quando ocorre uma crise maior, um problema mais grave de relacionamento ou uma decepção interior muito profunda, a gente se convence de que precisa voltar-se para si mesmo, não para se fechar em uma auto suficiência egoísta, mas para se tornar mais capaz das relações e do compromisso com a vida.

O primeiro passo para este encontro é tornar-se muito atento a si mesmo, ao seu corpo, ao seu pensamento e seus desejos. À medida que a pessoa vai se tornando consciente do próprio corpo, da sua mente e dos seus desejos, um milagre começa a acontecer. Você se sente mais você mesmo/a e certas coisas que fazia sem perceber ou não são mais feitas do mesmo modo ou são assumidas com uma consciência nova e mais profunda.

Muita gente se pergunta como alcançar este objetivo. As tradições espirituais propõem métodos simples, mas eficientes. As religiões orientais insistem na qualidade da respiração. A respiração é a energia fundamental da vida. A respiração muda de ritmo quando a pessoa está feliz ou com raiva, quando está relaxado ou excitado, com medo ou alegria. Quando se muda conscientemente o ritmo da respiração, pode se mudar o estado da mente e vice-versa. Aprender a respirar profundamente faz bem à saúde e ajuda à auto-consciência e à meditação. Jean Yves Leloup mostra que no grego do Evangelho, é possível traduzir a palavra de Jesus à samaritana como: "Deus é sopro (pneuma - em hebraico, ruah) e deve ser adorado através da respiração (sopro) e da solidariedade, ou seja, a verdade nas relações" (Jo 4, 24).

Nas tradições orientais, há centenas de formas de meditar. Em geral, o objetivo é tornar a pessoa mais atenta a si mesma e mais centrada. Uma das formas mais comuns se dá pela manhã. Ao acordar, a pessoa é convidada a visualizar uma imensa luz que entra pela sua cabeça e vai direto para o centro do seu corpo, como se um sol nascesse no mais íntimo do ser. A pessoa respira absorvendo esta luz divina e expira deixando que tudo o que é escuro possa sair. Assim, a luz divina toma conta de todo o ser.

Na tradição judaico-cristã, a meditação pode ajudar a pessoa a "habitar consigo mesma", mas não para ficar na auto-centração e sim para se tornar mais capaz de escutar a Palavra divina e acolher o apelo do amor que Deus lhe faz. Na tradição judaico-cristã, a meditação se dá em torno da Palavra que é o primeiro sinal da presença divina. O Baal Shem Tov, fundador do hassidismo judaico, gostava de meditar olhando as águas do rio. Ali adquiria a quietude necessária para deixar que a Palavra impregnasse toda a sua vida. Duas vezes, o evangelho de Lucas diz que Maria costumava meditar, revolvendo no coração tudo o que via e ouvia.

Alguns séculos depois, uma mística tomava para a meditação a imagem da vaca. A vaca rumina o alimento, ao fazê-lo ir da boca ao estômago e, novamente, do estômago à boca, até que ele esteja pronto a se tornar sangue e energia. Do mesmo modo, quem medita a palavra divina, a revolve no coração, como quem mastiga e a rumina até assimilar e fazer com que a palavra se torne carne da nossa carne. A Palavra da Bíblia se torna carne de nossa carne quando faz de nós pessoas inteiramente movidas pelo amor-solidariedade. A meditação nos ajuda a entrar no mais profundo do nosso ser para nos ensinar a nos despojar e sair de nós mesmos ao encontro do outro e ao serviço para tornar este mundo uma terra de amor.