|
Pedro
Casaldáliga:
|
M.Paz |
|
O fato de Pedro Casaldáliga, bispo emérito da prelazia de São Félix do Araguaia, completar 80 anos não diz respeito somente a ele e a nós, seus amigos e discípulos, mas a todas as pessoas que participam da parcela da humanidade que busca um novo mundo possível. Pedro Casaldáliga celebrou seus 80 anos, discretamente, mas a coincidência deste aniversário com a proximidade da Páscoa é significativa. Tanto para as pessoas que aprenderam com ele a ligar a fé cristã com a fome e a sede de justiça no mundo, como para muitos que não tiveram a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, o exemplo de vida e a mensagem de Pedro dizem mais sobre a paixão e a ressurreição de Jesus do que certos discursos religiosos que a humanidade, tem cada vez mais dificuldade de aceitar.
Paulo Freire insistia que as pessoas se educam no diálogo, a partir da referência de educadores/as de base.Infelizmente, estas pessoas de referência |
Casaldaliga e o testemunho do Pe. Burnier |
| para a educação popular e a libertação da humanidade são raras. Por isso, a figura frágil, mas espiritualmente gigantesca de Pedro Casaldáliga é um tesouro apreciado por pessoas e grupos das mais diversas naturezas. Não conheci Pedro no tempo em que ainda morava na Catalúnia, antes de vir ao Brasil, mas conheço pessoas, inclusive um abade beneditino que o teve como mestre e já o admirava como profeta. Todos salientam a capacidade de ser ele mesmo e viver a fé como homem simples e aberto à vida. Pedro chegou ao Brasil quando as Igrejas da América Latina viviam a experiência luminosa da conferência episcopal de Medellín (1968) e, o Brasil, grávido das comunidades eclesiais de base e da pastoral popular, enfrentava o desafio de como viver este caminho em plena ditadura militar, consolidada para garantir os privilégios dos poderosos do campo e da cidade. Neste contexto, Pedro aceitou ser bispo da prelazia de São Félix. O jeito de Pedro viver e expressar a fé valorizou a piedade do povo e ajudou-o a passar de uma fé resignada para uma espiritualidade militante. O povo não estava habituado a ver um bispo de sandálias de dedo, morando em casa de periferia e viajando pelas estradas, a pé, de canoa indígena com seus amigos Tapirapé, ou com os transportes coletivos que os pobres tomam para se locomover na região. Com ele podiam conversar sobre os assuntos cotidianos da vida e se tornarem amigos, fossem ou não casados na Igreja, freqüentassem ou não os cultos... Principalmente, os lavradores sem-terra e os peões de trecho sempre tiveram em Pedro um padrinho que lhes ensinou a cantar: "Já temos terra no céu. Queremos terra na terra". Em Goiás, tínhamos dona Aninha, Cora Coralina, a "poetisa das pequenas coisas do dia a dia". Em São Felix do Araguaia, Pedro fazia exatamente o mesmo, no campo de uma espiritualidade poética do cotidiano. Um dos volumes do seu diário, consagrado aos anos 80, revela isso. Um dia, ele comenta uma conversa com um peão, no outro dia, a preocupação com uma menina que contraiu tuberculose e no outro, o que ouviu de um velho que morria de cirrose hepática, depois de viver sempre bêbado . Nos mosteiros antigos, uma tradição era dar ao ancião que completava 80 anos, um báculo que fazia dele pastor dos seus irmãos. Independentemente de qualquer cargo pastoral que tivesse. Neste aniversário de Pedro, além dos votos e felicitações merecidas, do mundo inteiro se ergue uma imensa onda de amor e simpatia universal que reúne crentes das mais diversas tradições espirituais e pessoas que se declaram como crentes na sacralidade da vida e nos valores humanos. Este fórum invisível, formado por pessoas do mundo todo, certamente, dará a Pedro uma força maior na luta cotidiana contra os males do corpo sacrificado, em tantos anos de missão radical, vivida no cerrado do Mato Grosso, nos rios do Xingu, pelas estradas do Brasil e por toda a América Central. Ao agradecer esta festa, o que Pedro Casaldáliga continua a nos dizer é que, mesmo se os tempos são mais difíceis e a profecia mais rara, é preciso apostar na esperança e viver, de novo, hoje, a insurreição evangélica, em relação ao mundo e, quando necessário, à nossa própria confissão religiosa. Para quem não sabe, a insurreição evangélica é a energia subversiva do Evangelho, capaz de denunciar as estruturas injustas e a iniciar por nós mesmos um ensaio tímido, mas forte do reino de Deus, projeto divino de paz e justiça. No céu, Deus anda triste com a imagem que sobre ele alguns que se dizem seus amigos dão ao mundo. Pedro é testemunha da ressurreição de Jesus porque segue um mestre aberto e provocador, que nos torna cada vez mais humanos, nos joga para a solidariedade aos movimentos sociais e indígenas e é capaz de mostrar o sol, mesmo no meio das mais escuras tempestades. Um dos poemas de Pedro nos diz: "Saber esperar, sabendo, ao mesmo tempo, forçar as horas daquela urgência que não permite esperar". NB: Já tinha escrito e enviado este artigo quando soube que também está completando 80 anos de vida, Dom Celso Pereira, bispo emérito de Itumbiara, que consagrou toda sua vida ao serviço dos pobres e à profecia da justiça e da paz. Parabéns. |
|
| |